Cleiton Oliveira

A vida de um Endividado – Seus tormentos, angústias e esperanças

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A vida de um Endividado

João é um jovem de 29 anos que ganha R$ 15 mil líquidos mensais. Um ótimo salário, não?

Mas ele não recebe R$ 15 mil todo mês. Ele recebe R$ 12.000 na sua conta-corrente, pois R$ 3,0 mil já estão comprometidos com um empréstimo consignado que é descontado automaticamente de sua folha de pagamento.

Mas o problema é que ele não tem disponibilidade sobre esses R$ 12,00 mil, pois outros R$ 1.225 estão comprometidos com o boleto do financiamento bancário de seu Tucson zero quilômetro, pago em 60 parcelas mensais – atualmente ele está pagando a parcela nº 27.

Sobram efetivamente em sua conta, então, R$ 10.775. Mas quem disse que ele tem inteira disponibilidade sobre esses R$ 10.775? Ele não tem  – na verdade, não pode sequer gastar – esse valor todo.

É que ele tem 3 cartões de crédito, acumulando dívidas que, somadas, chegam hoje a R$ 7.450,00 mensais, por conta de não ter conseguido pagar as faturas em dia.

Sim, leitoras e leitores, ele entrou no famigerado rotativo do cartão de crédito e, sobra líquido para ele, na verdade, a quantia de R$ 3.325 para os diversos outros gastos mensais.

E estamos falando de um rapaz que ganha R$ 15 mil líquidos.

É lógico que, com tão pouco dinheiro disponível para gastar (Como assim, pouco? O João recebe salário de R$ 15 mil!), não resta outra alternativa a ele a não ser pagar tudo o que pode e o que não pode na maior quantidade possível de parcelas no cartão de crédito, sem contar o recurso frequente a novos empréstimos.

A bola de neve das dívidas é algo difícil de imaginar para quem sempre foi educado financeiramente, mas é algo assustador quando você se depara com histórias como a de João.

Não há dúvidas de que um plano de reestruturação de dívidas é urgente na vida dele, mas só isso não basta, porque, mesmo que João consiga, depois de muito sacrifício, quitar todas ou parte das dívidas, dali a algum tempo ele novamente voltará a fabricar outra bola de neve de dívidas… a menos que ele modifique seus padrões de comportamento.

A Vida de um Endividado

Passada a hora do jantar, ligo a televisão e vejo as péssimas e constantes notícias do dia.

Nada muito diferente vem acontecendo nos últimos anos. O país passa por uma longa crise.

A vida não está fácil para ninguém.

Na hora em que desperto e chegada a hora em que uma gerente de banco liga e deixa recado de voz.

Há também mensagens de texto, e mais uma, todas, por telefone ou e-mail, querem saber o que está acontecendo e eu imploro aos deuses que essa tortura termine. Até onde cheguei…

Bem que meu amigo sempre, a vida inteira, me disse o quanto eu era desorganizado financeiramente.

E sou. Mas estudei, passei no vestibular da melhor universidade, aprovado no disputado curso de medicina.

Foram muitos dias e noites estudando. E depois da residência pude, enfim, exercer a tão sonhada profissão.

Aprovado em dois concursos públicos, dois hospitais privados, consegui me credenciar nos principais planos de saúde.

Agenda cheia para os próximos 365 dias! Sabe o que é isso? Estou trabalhando muito, mas não se preocupe, estou feliz assim.

Algumas desistências, tudo bem, acontece. Cancelamentos de agenda continuam. Será que o problema sou eu?

A secretária diz que todas as pacientes me mandaram um forte abraço, mas com a demissão perderam também o plano de saúde.

Os bebês de cinco pacientes devem chegar logo. Não posso abandoná-las, o financeiro eu resolvo depois.

O que dizer para as gerentes? Melhor dormir, amanhã eu penso.

O apego ao status

O dia chega e atualizo meu saldo negativo. Tudo isso!? Penso na minha academia, nas minhas saídas noturnas, no condomínio, no clube.

A empregada, sim, é preciso pagar. Minha contas gritam, você vai perder o apartamento! O meu carro? Pode levar.

Incluindo o financiamento do apartamento, devo quase R$ 1 milhão. E minha renda, que já foi R$ 50 mil, hoje não chega a R$ 20 mil.

Como um leão abatido, procuro o advogado que me informa que, se pedir insolvência, terei uma série de restrições na capacidade civil.

Me tornarei um coiote, entre leão e coiote, melhor ser Eduardo mesmo.

Minha vez de ligar! Ligo e no (ainda) meu consultório, me reúno com todas as gerentes.

Em tom franco e solene, informo: deduzidos os bens que vos entrego, me resta a renda dos serviços públicos, hospitais e consultório.

Renda de R$ 15 mil, ante uma dívida restante de R$ 1 milhão.

Respiro aliviado! Antes, tinha um problema que me tirava o sono. Agora, o problema é dos bancos também, perante minha declaração de impossibilidade de cumprir os termos contratados.

Juntos, devedor e credores, teremos de encontrar uma solução. As gerentes prometem trazer as posições dos bancos após as consultas de excepcionalidade.

Hoje, não sei se estou triste ou feliz, se conseguirei (ou não) trazer de volta a minha vida.

Neste momento, a única certeza que tenho é o dever de trabalhar muito para gerar renda mínima de R$ 20 mil e pagar, aos bancos, R$ 6.000 mensais pelos próximos 12 anos.”

O início da Vida de um Endividado

“Comprei o Tucson porque me sentia inferiorizado quando entrava na garagem do prédio onde moro. Lá, a maioria dos carros estacionados é composta por Jeeps, HR-Vs, ix35, Mini Coopers e Ford Rangers, de modo que eu me sentia desconfortável quando eu estacionava o meu antigo e modesto New Fiesta.

As dívidas nos cartões de crédito e no empréstimo consignado são decorrentes de gastos em restaurantes, viagens, roupas, relógios e sapatos. Sempre achei que, para ser bem-sucedido, tinha que usar roupas sociais de grife e sapatos luxuosos. No shopping, os vendedores sempre me olham diferente por eu portar um Tag Heuer no meu pulso. Nas saídas de final de semana com amigos e colegas de trabalho, sempre vamos para os restaurantes e baladas mais caras, onde a consumação mínima é maior também. Eu sou um cara apaixonado por vinhos, e não gasto menos que R$ 80 numa boa taça de vinho importado, numa refeição fora de casa. Afinal de contas, se você não gosta de vinhos, você tem menos oportunidade de impressionar outras pessoas.

Quanto às férias, eu sigo um esquema: férias de verão eu aproveito ou para ir a Trancoso, ou para ir ao exterior, Estados Unidos ou Europa, e não me incomodo de pagar R$ 5 mil ou R$ 10 mil para viajar em classe executiva. As férias de inverno, eu gosto de passar esquiando no Chile ou na Argentina, e procuro sempre me hospedar em hotéis de no mínimo 4 estrelas. Acho que isso compensa, porque as fotos que posto no Facebook e Instagram e os vídeos que posto no Stories ou no Snapchat sempre rendem boas histórias para contar nas rodadas de happy hour que tenho com os amigos e também nas baladas de sábado à noite.

A situação financeira saiu um pouco fora de controle, eu admito, mas eu estou confiante de que conseguirei contorná-la. Ainda tenho uma margem no empréstimo consignado e é provável que eu consiga uma promoção na carreira, o que seria suficiente para quitar pelo menos parte das dívidas, já que meu salário subiria 30%, fora os bônus por desempenho.

Não tenho tantas preocupações quanto ao futuro, pois conto com um PGBL da empresa, onde pago 3% a.a de taxa de administração e 2,5% de taxa de carregamento. Além disso, meu gerente no Itaú Personalité é ótimo, porque ele sempre consegue aumentar o limite do meu cheque especial quando eu preciso; aliás, fiquei tão contente com a eficiência dele nesse assunto, que fiz o PIC de R$ 250 mensais em troca desse favor. Acho que vale os R$ 71,90 mensais de pacote de serviços que eu pago, porque a logomarca do banco estampada na frente do meu cartão de crédito impressiona o garçom e meus amigos quando eu tiro meu cartão da carteira para pagar a conta de um restaurante – afinal, não são todos que podem ter conta nesse segmento do banco”. Fonte

Os tormentos na vida de um endividado

A vida de ilusão do João teve fim com as ligações amigáveis dos bancos, questionando quando pretendia pagar as prestações em atraso. Cerca de 90 dias depois, o tom da conversa mudou.

Uma empresa de cobrança terceirizada, remunerada pelo sucesso de conseguir (ou não) o pagamento de dívidas atrasadas, passou a ligar em tom bem menos amistoso.

João foi notificado formalmente aos 15 dias de atraso. Seu nome, apontado no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) antes do 30º dia. A negativação é um alerta para outras instituições financeiras.

Na dúvida, elas cancelam linhas de crédito e tentam renegociar o saldo devedor existente.

A pressão aumenta. Além do SPC e da Serasa, o Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central aponta os créditos vencidos.

Impossível manter sigilo sobre essa delicada situação.

João buscou (e acreditou) na renegociação das dívidas a partir dos 90 dias.

E, embora se diga que os descontos chegam a 60%, é bom saber que raramente as instituições abrem mão do valor emprestado.

Os descontos normalmente se referem a multa, juros de mora, taxa do contrato, entre outros encargos.

Após cinco anos, os bancos retiram o apontamento, já contabilizado como perda.

Tempo de desistir de receber e tocar a vida.

Mas não se anime com essa perspectiva, será que vale a pena fechar a porta de acesso ao mercado de crédito? Fonte

Como quebrar o ciclo do endividamento

Trata-se de um processo que envolve basicamente duas etapas.

Primeiro, é preciso identificar a origem das dívidas. Para isso, é fundamental ter uma planilha de orçamento doméstico, um registro das despesas, organizado e agrupado por categorias.

Quanto mais detalhado ele for, melhor.

  • É a partir da planilha de orçamento doméstico que conseguimos identificar os “vazamentos” de dinheiro, pois a matemática é infalível: ela apontará onde estão ocorrendo os maiores gastos, aqueles que te fazem recorrer a credores com suas taxas de juros exorbitantes. Você acha que isso soa um tanto quanto óbvio, pois você já faz uma planilha de orçamento doméstico há mais de 10 anos, e não consegue imaginar como as pessoas hoje em dia, tão bem instruídas intelectualmente, não conseguem fazê-la?

O segundo passo é o mais difícil: é o ato de mudar. Muitos até conseguem realizar – a muito custo – o primeiro passo (a identificação das despesas), mas, quando se defrontam com a realidade das dívidas, a primeira coisa que fazem é recuar.

É não admitir a existência do problema – ou da raiz do problema, para ser mais exato.

Veja o caso de João: ele comprou um carro mais novo – e completamente incompatível com sua renda e com seu patrimônio financeiro à época – porque, na mente dele, havia uma competição velada na garagem do condomínio onde mora: quando um vizinho comprava um carro novo, outro vizinho logo tratava de comprar um carro mais caro do que aquele, o que, por sua vez, fazia com que um terceiro vizinho entrasse no “jogo” e comprasse um carro ainda mais caro do que o carro comprado pelo segundo vizinho.

João entrou nesse jogo imaginário, modificando o comportamento dele unicamente em função do comportamento dos outros. Em resumo: ele passou a viver a vida das outras pessoas.

É precisamente esse padrão de comportamento que João precisa modificar: ele precisa viver a vida nos seus próprios termos (os dele), e não a vida das outras pessoas (de seus vizinhos). Ele precisa ter coragem para viver a vida fiel ao que ele é, e não a vida que os outros esperam (ou não) que ele viva.

Enquanto ele não mudar esse padrão de comportamento, não conseguirá viver totalmente longe dívidas: assim que acabar de pagar as prestações do Tucson, alguém duvida que o próximo degrau nessa escalada de dívidas será a compra de um carro ainda mais caro?

Conclusão

Dar um fim na vida de um endividado modificando seus padrões de comportamento é, sim, a estratégia mais poderosa que existe. Por que falo isso? Porque ela tem o poder de mudar suas crenças em relação ao dinheiro.

O dinheiro é apenas uma ferramenta, um meio, um instrumento, que potencializa o que você já é.

Se você é uma pessoa solidária e gosta de fazer doações, acha que o dinheiro, nesse contexto, é uma ferramenta para melhorar a vida de outras pessoas, quanto mais dinheiro você possuir, mais vidas você será capaz de ajudar.

Em outras palavras, se você é solidário, com mais dinheiro, você será ainda mais solidário.

Se você é uma pessoa que tem necessidade de aprovação social, que consome símbolos de status – roupas, relógios, carros e celulares – com esse objetivo, quanto mais dinheiro você possuir, mais símbolos de status você consumirá e gastará.

O dinheiro potencializa o que você já é, ele potencializa e aumenta suas características pessoais. Se você é egoísta, mais dinheiro o tornará ainda mais egoísta.

Se você gosta de ostentar, mais dinheiro o tornará uma pessoa ainda mais insuportável. As mudanças de mentalidade não ocorrem de fora para dentro: elas ocorrem de dentro para fora.

Não é uma tarefa fácil, pois transformar sua identidade mexe com seu emocional, mudar seus valores não é tarefa fácil. Porém, é uma atividade passível de conquista.

Como Eliminar as Dívidas e Prosperar Financeiramente

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Cleiton Oliveira

Sobre o autor | Website

Life Coach, Educador Financeiro e autor do livro O Poder do Método –

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